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Um século de confiança no Brasil

Um século de confiança no Brasil


  08/03/2019

A engenheira química Daniela Manique, formada pela FEI em 1996, conta quais são seus desafios à frente da presidência do Grupo Solvay na América Latina

O Grupo Solvay completa 100 anos de Brasil em 2019 e o País ainda tem o mercado mais importante em toda a América Latina, responsável pela produção de aproximadamente 800 mil toneladas/ano de diversos produtos químicos, especialidades químicas, plásticos e polímeros de alto desempenho, e têxteis. Em julho, a engenheira química Daniela Manique, formada pelo Centro Universitário FEI em 1996, assumiu a presidência do Grupo Solvay para a América Latina com a missão de coordenar iniciativas que possam garantir o crescimento sustentável desses negócios na região, mas continua responsável pela unidade global de negócios (GBU, na sigla em inglês) Coatis, função que exerce desde janeiro. A executiva conta, nesta entrevista exclusiva, que seus principais desafios são continuar mostrando quanto a região é importante para o Grupo e trabalhar para que a América Latina volte a ter maiores patamares de crescimento e de relevância.

A senhora foi a primeira mulher na Solvay a assumir o comando de uma unidade global de negócios noBrasil, a Coatis. Em julho, assumiu a presidência do Grupo na América Latina e passou a acumular as duas funções. Como pretende garantir o crescimento sustentável dos negócios na região?

Na verdade, o sustentável é uma obrigação dentro da Solvay. A empresa tem um sistema muito forte, que é auditado externamente por uma empresa de consultoria – SustainablePortfolio Management (SPM) – e qualquer projeto, qualquer investimento que se faça dentro da empresa deve estar adequado às análises do SPM. Temos de avaliar se o produto que está recebendo o investimento tem algum risco de entrar em alguma lista de banimento, red list ou lista de alerta de que, no futuro, pode não ser adequado para o mercado consumidor ao qual estamos destinando. Se, por acaso, estiverem alguma dessas listas, não haverá recurso para investimento. O Grupo Solvay tem uma característica muito interessante: é uma empresa de 155 anos que ainda tem a maior parte das ações controlada pela família e está sempre muito preocupado com as próximas gerações – e isso se adequou muito bem quando foi feita a compra da Rhodia, em 2012, porque a Rhodia completa 100 anos em 2019. Então, temos de garantir que o crescimento para a Coatis e para a região sempre esteja alinhado com isso porque, caso contrário, não haverá recursos. Temos duas linhas de trabalho e a primeira é o crescimento orgânico das nossas operações. Estamos crescendo e inauguramos, em setembro, uma fábrica de solvente oxigenado sustentável em Paulínia (SP), com investimento importante da ordem de R$ 50 milhões. Já estamos aprovando a fase 2 desse investimento, para 2019, e devemos ter mais uma ampliação dessa nova fábrica que, para nós, é um orgulho, pois o produto é totalmente desenvolvido no nosso Centro de Pesquisa no Brasil, que tem mais de 100 profissionais. Inclusive, o Laboratório de Biotecnologia (IBL) do Grupo Solvay mundial está baseado em Paulínia.

O Brasil é o mercado mais importante na América Latina?

Hoje, o Brasil é o mercado mais importante para a Solvay em toda a região, pois é o que tem o maior percentual de faturamento, o maior histórico e onde estamos presentes há mais tempo. Mas temos outros mercados em crescimento, como o Chile, a Colômbia e o México. Existe possibilidade de investimento em toda a região, mas o Brasil tem a maior massa crítica e o maior conhecimento histórico do Grupo. Com a venda de uma área de negócio para outra empresa, que deve ser concluída no final deste ano, Paulínia passa a ser o maior site industrial do Grupo Solvay no mundo, porque o tamanho da operação é realmente muito relevante. O Brasil representa cerca de 10% do faturamento global do Grupo, mas o networking é total. Mesmo a minha unidade de negócios, apesar de o head quarter estar no Brasil, tem pesquisadores em Xangai (China), na Coreia, em Lyon (França) e acabamos de expatriar uma brasileira para os Estados Unidos. Nosso Laboratório de Biotecnologia trabalha para os negócios do mundo.

Qual é o seu papel na presidência do Grupo Solvay para a América Latina?

Tenho a presidência da minha GBU, pela qual sou responsável por toda a parte dos indicadores financeiros e desempenho, e sou a representante do Grupo Solvay na América Latina para questões de networking e representatividade na região. Minha obrigação é fazer com que, na América Latina, o Grupo apresente suas demandas para melhorar a competitividade em relação ao acesso a matérias primas, energia e outras questões que interferem em todas as unidades globais de negócio na região. Também sou responsável por coordenar para que toda a empresa siga as políticas e práticas do Grupo, mantendo essa troca entre as unidades para facilitar os negócios na América Latina, e por toda a parte de compliance. Uma vez por ano, é obrigatório que todo profissional do Grupo Solvay refaça a sua formação de compliance, de antitruste, para entender e estar alinhado com as políticas do Grupo, que são muito fortes, e tenho o papel de embaixadora, para pedir que todos os líderes de negócios da região sigam essas regras. Temos uma iniciativa que chamamos de ‘família comercial’, justamente para trazer essa palavra de aconchego a todos os líderes de negócios e gerentes comerciais da região, para discutir melhores práticas, orientação ao cliente, compliance, enfim, todos os assuntos comuns a todas as GBUs. É de minha responsabilidade, ainda, verificar aspectos legais do país e o aspecto financeiro dos negócios, que é analisado pela Rhodia Poliamida Especialidades, a empresa financeira do Grupo. Por fim, tenho como papel trazer uma uniformidade de relacionamento com os clientes, pois temos clientes atendidos por várias unidades de negócios.

A Solvay atua em muitas áreas. Como atender o desafio de crescimento com tanta diversidade?

O Grupo desenvolveu um modelo de negócio e, hoje, temos 12 unidades globais de negócios com as quais conseguimos dar mais foco para os mercados, cada uma agindo com independência para atuar profundamente e entender esses nichos. O foco do Grupo Solvay foi esse modelo de diversificação, de atuar em mercados com maior valor agregado, mas com muita tecnologia. Hoje, investe-se pesadamente em pesquisa e desenvolvimento. Por exemplo, temos polímeros especiais sendo usados fortemente na área de medicina, que demandam anos de aprovação, porque temos uma preocupação com o bem-estar das pessoas. Também foram colocadas algumas megatrends para estarmos em algumas áreas, como transporte coletivo de alta velocidade, porque o Grupo acredita que, no futuro, a mobilidade estará focada em meios de transporte capazes de conduzir cada vez mais pessoas. Além disso, investimos em produtos para aviões cada vez mais modernos, na indústria aeroespacial e temos polímeros especiais para smartphones, porque o Grupo também acredita nessa comunicação extremamente rápida, em materiais leves, de alta performance, sustentáveis e que sejam mais amigáveis com o meio ambiente. Cada uma dessas 12 GBUs tem seus focos de mercado, seus presidentes e uma estrutura como se fossem pequenas empresas. O que reportamos aos membros do board é, em primeiro lugar, a questão da segurança. Esse é o investimento prioritário do Grupo! O segundo é o resultado, mas, sempre com muita independência das unidades de negócios, uma vez que estamos alinhados nessa questão de sustentabilidade e compliance, seguindo as regras de antitruste do Grupo. No caso da Coatis, somos uma GBU focada bastante em solvente oxigenado, fenol e derivados para os vários mercados.

A companhia está completamente inserida no contexto da química verde?

Sim, durante muitas décadas fomos o maior consumidor de etanol do Brasil para a indústria química e ainda temos uma utilização muito forte dessa matéria-prima para o nosso acetato de etila. Nossa linha de acetatos é a única no mundo sem a presença de aromáticos, pois são solventes usados pela indústria de produção de alimentos para as embalagens de muitos produtos. O foco do Grupo é inovação! Temos de ter o nosso portfólio, prioritariamente, até 2025, formado por produtos inovadores e sustentáveis. Recentemente, a Solvay anunciou em Lyon um dos centros de inovação mais modernos das empresas químicas da Europa, com investimento gigantesco. Esse centro servirá mundialmente a todas as empresas e vai ter tecnologias que serão usadas nos próximos 50 anos. O objetivo do Grupo Solvay é, além de usar as tecnologias de hoje, avaliar e incorporar o que vamos precisar de equipamentos e análises para a indústria do futuro. No Brasil temos o IBL, que é o Laboratório de Biotecnologia de Paulínia, cujo foco é 100% inovação para trazer, através de matéria-prima renovável, produtos sustentáveis para a substituição de outras linhas. O Brasil também abriga a nova fábrica para produzir o Augeo®, um solvente verde com tecnologia 100% nacional, de fonte renovável, totalmente low voc (baixa concentração de composto orgânico volátil), sem odor nenhum, muito amigável e extremamente bem- vindo, principalmente nos mercados que têm uma legislação mais avançada que a brasileira e mais demandadora desses produtos sustentáveis. Por isso, temos exportado 80% deste produto.

O Grupo tem um histórico de fusões e aquisições. A expectativa é manter essa estratégia para os próximos anos?

A Solvay fez, de forma mundial, uma troca de portfólio muito importante nos últimos anos. Alguns mercados não estavam alinhados com essa nova regra de sustentabilidade da empresa, por exemplo, cabo acetato para filtros de cigarros, e houve um desinvestimento. O Grupo Solvay também se desfez de algumas comoditiese comprou outras empresas de altíssimo valor agregado. O nosso presidente falava que, em grandes números, vendemos 15 bilhões de euros e compramos 10 bilhões de euros. Portanto, a transformação foi gigantesca, o que acabou atingindo a América Latina. Regionalmente, continuamos olhando possibilidades de negócios que tragam sinergia. Esse é um exercício constante e faz parte do DNA do Grupo Solvay.

Quando a senhora começou a trabalhar já tinha em mente chegar ao topo da carreira aos 44 anos de idade?

Acho que a ideia não era tão clara assim: quero ser presidente antes dos 50 anos ou quero ter a posição que tenho hoje. Tinha para a minha carreira, até porque eu sou de uma família de engenheiros – meu pai e meu irmão são Feianos – a pretensão de chegar a um posto de cargo executivo, chegar a um cargo de direção, poder ter a rédea, a tomada de decisão de algum negócio, isso sim era o meu sonho. Tinha ambição quando saí da FEI, mas, depois, foi uma construção muito mais de imaginar aonde eu queria estar nos próximos cinco anos e como poderia construir esse próximo passo. A FEI tem uma formação extremamente forte, técnica, mas eu tinha dificuldade para entender os números financeiros e, assim que graduei, fui para a Fundação Getúlio Vargas para poder entender um pouco mais de marketing, um pouco mais de finanças. Depois de dois anos vi que precisava de um MBA, que era o próximo passo até para networking, e fui para o MBA da Faculdade de Economia e Administração da USP, a FEA. Antes de assumir esse desafio da presidência, o meu líder, que era o nosso antigo presidente e sempre me apoiou muito, perguntou o que eu achava que faltava e eu respondi que era formação de estratégia. Assim, fiz três módulos de formação na INSEAD, na França, para me formar em estratégia e assumir essa posição. A minha proposta era sempre estar pronta para o próximo passo e investir para chegar no modelo daquele líder que eu admirava. Por isso, acho muito positivo quando um jovem diz que quer ter a minha posição, mas é muito importante entender os passos que precisaram ser trilhados para chegar aonde estou hoje. Minha trajetória profissional começou na Divisão Química da Shell, onde fiquei por cinco anos: fui estagiária, depois trainee e finalmente efetivada. Depois fui para a Ultragaz, do Grupo Ultra, onde fiquei por cinco anos, e faz 14 anos que estou na Rhodia, do Grupo Solvay.

Quais são as suas melhores características para ter chegado ao cargo de presidente tão jovem?

Primeiro, a ética! Na minha carreira, nunca fiz nada que não acreditasse que estivesse correto, e nunca tive medo de falar “isso eu não faço, isso eu não concordo”. Antes de qualquer carreira, de qualquer empresa, de qualquer cargo, está o meu nome e quero poder encontrar com qualquer colega da indústria, amanhã, olhar nos olhos e dizer que sei que fiz o que achava que era melhor e que agi de forma ética. Isso eu aprendi com muitos dos meus líderes também: poder sempre andar de cabeça erguida e saber que fizemos tudo de forma ética, o que para mim é primordial. Outra questão é o comprometimento. Sempre tentei me imaginar um pouco com a cabeça de dono da empresa e pensar o que eu faria se a empresa fosse minha. E tentei levar isso para dentro do Grupo Solvay, para mostrar que isso é o que faz mais sentido como um todo. Esse comprometimento sempre esteve comigo. O terceiro ponto é o relacionamento. Trabalhar como equipe e imaginar que essa pessoa que está falando com você, que hoje é seu par, amanhã pode ser seu líder, pode estar na sua equipe. Sempre trabalhei respeitando a ideia dos outros e aprendendo com o trabalho em equipe. A Solvay é muito forte com trabalho em equipe, temos um ambiente de trabalho muito positivo, e isso é algo de que me orgulho muito. Também acredito que temos de honrar a empresa e ter flexibilidade para entender o feedback e encontrar uma forma melhor de agir e de fazer. Essa flexibilidade está um pouquinho no sangue do brasileiro e podemos levar lá para fora, pois é bem-vinda.

Sua formação na FEI ajudou a ter os requisitos para ser uma boa gestora?

O que foi muito bonito na minha formação na FEI é o perfil humano, sem dúvida. Não me recordo de alguma disciplina que tivesse aspecto de liderança ou de formação de networking, mas isso podemos fazer em cursos de extensão e essa construção deve começar muito antes da faculdade. Como mãe, me preocupo muito mais com essa formação social da minha filha de sete anos, porque acho que, se formos fazer isso com um jovem de 18 ou 20 anos, já será um pouco tarde. O que teve de muito positivo para mim no curso de Engenharia foi a forte capacidade analítica de raciocínio, que me ajuda nas reuniões e também nas conexões sociais. Obviamente, tínhamos uma carga técnica muito forte na FEI, e acho que ainda tem, mas a capacidade de raciocínio lógico ue se desenvolve durante aqueles cinco anos de curso abre portas muito mais fáceis para outras formações. Encontro com alguns colegas da FEI que, assim como eu, de vez em quando ainda sonham que repetiram de Mecflu, que é a prova de Mecânica de Fluidos. Lembro que na Termodinâmica, por exemplo, o professor Trevisan falava que podíamos trazer o que quiséssemos para a sala, e tinha gente que vinha com aqueles carrinhos de mala com livros de todos os tipos, mas, na verdade, a maior parte do exercício estava em entendermos o enunciado, o que o problema estava pedindo e, muitas vezes, a prova era mais uma questão  de interpretação do que solução de um problema. E era um exercício desafiador fazer uma conjunção, uma união dessa parte técnica, desse desenvolvimento de raciocínio com a parte social.

A senhora é mãe de uma menina de sete anos, tem família e uma imensa responsabilidade como profissional. Como conciliar todas essas atividades?

Às vezes fica um pouquinho de culpa, o que acho natural. Mas tenho uma estrutura familiar que me dá muito suporte, e isso é muito importante. Tenho uma supermãe que me ajudou muitíssimo nesses 20 anos de carreira e, principalmente, depois do nascimento da minha filha, especialmente quando viajo e fico bastante tempo fora. Tenho um esposo que também me dá suporte, que quando fui expatriada foi comigo para a França fazer um doutorado, e que teve a flexibilidade de acompanhar a minha carreira. Hoje, todo começo do mês nos sentamos – eu, meu marido e minha mãe – para discutir a agenda mensal. Apesar da correria, levo a minha filha na escola, tento discutir com ela o que aconteceu no dia anterior e, nos fins de semana, me dedico profundamente à minha família. Ter todos muito alinhados e realmente patrocinando esse crescimento da minha carreira me ajudou muito.

Quais são os seus grandes desafios daqui para frente?

O grande desafio é justamente continuar mostrando que a região é muito importante para o Grupo. Apesar desse momento de incerteza, de um pouquinho de adversidade, conseguimos continuar crescendo. Trouxemos um investimento de R$ 50 milhões para o Augeo® e de R$ 13 milhões para Itatiba e Taboão da Serra, em São Paulo, e queremos que a região avance. No passado, já chegamos a ser quase 20% do Grupo. Não sei se conseguiremos alcançar novamente esse percentual, porque todas as regiões estão crescendo, mas estamos trabalhando para voltar a ter patamares maiores de crescimento e de importância. Ter uma regra ambiental bem estabelecida e muito correta, por exemplo, é um ponto muito forte no Brasil, e mostrar que o Grupo Solvay já tem as melhores práticas mundiais aqui e que temos um mercado que também atua de uma forma muito correta é muito importante. Temos de continuar batalhando com o novo governante para que ele olhe para a indústria química, para que tenhamos acesso a matérias-primas competitivas, a energia elétrica, a uma melhoria da infraestrutura logística. E um pouco desse meu papel corporativo, para a região inteira e para todos os negócios, é também conseguir defender essa bandeira para continuar mostrando que o Brasil pode crescer.

A Solvay segue acreditando no Brasil?

Depois de 100 anos no País, o Grupo Solvay já passou por vários momentos, mas sempre manteve operações sólidas e mundialmente competitivas. Lógico que temos uma preocupação que o Brasil forneça matéria-prima e energia a custos competitivos, que hoje é a maior preocupação do Grupo. Por exemplo, acabamos de investir nessa fábrica cujo produto será 80% de exportação, apesar de todas as adversidades e de termos energia e gás natural com custo bastante elevado. Mas a inovação do produto que oferecemos acaba se justificando naturalmente. Assim, o Grupo vê, mais uma vez, o Brasil como uma oportunidade de investimento e acredita que será o celeirodo mundo, um campo fértil para matérias-primas renováveis. Estamos investindo no desgargalamento de plantas, no crescimento de novos produtos, em investimentos no site de Paulínia e, se houver oportunidades de aquisições de empresas que estejam alinhadas com o portfólio da Solvay e com esse caminho de sustentabilidade, analisaremos para ver se temos possibilidade de aquisição. Temos muita gente muito boa no Brasil, muita gente comprometida, muitos profissionais de altíssimo nível e vemos os talentos brasileiros sendo desejados pelo mundo. Precisamos acreditar que, de uma formação sólida, das nossas famílias, da nossa integridade e das nossas boas escolas vão sair pessoas muito boas mundialmente para todas as empresas.